Nato: Lord Ismay tinha razão?

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por Renascença | publicado às 21:31

Lord Ismay, o primeiro secretário geral da Nato, descrevia cirúrgicamente a ideia original na base da organização: "para ter os russos fora, os americanos dentro e os alemães controlados".

De então para cá o mundo mudou. A União Soviética já não existe. A Rússia está mais longe 1000 Km. A Alemanha autocontrolou-se e controla a economia.

O momento é de plena convulsão geopolítica que produz fissuras nas placas tectónicas do poder mundial. Há também deslizamento de móveis na casa comum europeia.

Na União vê-se como avançam tentativas de governação económica, enquanto se reduz a acção política. Em Lisboa, a Nato reiventa-se com o novo conceito estratégico, o terceiro desde o fim da Guerra Fria.

A boa notícia é a de que a Nato quer continuar a ser uma aliança defensiva assente no celebérrimo artigo 5: um ataque a um membro é um ataque a todos.

Afasta-se a tese rumsfeldiana de uma aliança neocon a actuar como polícia mundial. Será, talvez, mais corpo de bombeiros sapadores e menos polícia de intervenção.

Mas o futuro também carrega a nova Nato 3.0 de dúvidas. Um exemplo: em que altura um ciber-ataque envolve o artido 5 ?

Ponto alto de Lisboa pode ser, também, o abraço à Rússia e o fim definitivo da guerra fria.

A criação do escudo anti-mísseis euroatlântico com eventual participação de Moscovo não deixa, contudo, de levantar dúvidas no Kremlin. Aí, os falcões de Putin não esquecem quem venceu a guerra fria e quem, ainda em 2008, pressionava as suas fronteiras, na Geórgia.

Javier Solana diz que um abraço de Lisboa à Rússia chega para conferir sentido à Nato na próxima década. Mas afinal querem-nos parceiros ou aliados? perguntará o Kremlin.

Verdade é que a Rússia, de quem o imperador Leopoldo III dizia ter apenas dois amigos, o seu exército e a sua marinha, pode sair de Lisboa com novos parceiros e "ficar dentro".

A ser assim, se Lord Ismay, estivesse no Parque das Nações bem poderia alertar para o desafio do futuro mais distante: como redesenhar a Nato para que - com alemães auto-controlados - os americanos não queiram nunca "ficar fora"?.

JOSÉ BASTOS





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